Juros: quem quer a alta, e por quê
via Contexto Livre
Roberto
Setúbal e Pedro Moreira Salles, cabeças das famílias que controlam o Itaú,
esperam sorrir de novo: em 2012, lucros de “apenas” R$ 13,6 bilhões |
Para conter a inflação, há outros remédios. Mas oligarquia
financeira pressiona – porque quer voltar a ganhar os mesmos rios de dinheiro
de antes
Um assunto único domina as manchetes dos jornais brasileiros
mais vendidos. Folha, Globo e Estadodestacam, em frases quase idênticas que a inflação anualizada subiu (para
6,59%) e “estourou a meta” fixada pelo Banco Central (BC). Em consequência, não
restaria, ao próprio banco, outra alternativa exceto iniciar uma nova rodada de
elevação da taxa básica de juros (Selic), já na próxima semana. A presidente
Dilma Roussef, que se manifestou contra
a alta, há poucos dias, teria sido vencida. A Folha chega até a prever o montante e o
ritmo do ascenso: a Selic, hoje em 7,5% ao ano, passaria a 8,5%, após “quatro
aumentos de 0,25 ponto percentual, até dezembro”.
Noam Chomsky cunhou certa vez o termo “fabricação de consensos”
– provavelmente sem cogitar que alguém tentasse praticá-la de modo tão
caricatural quanto a mídia brasileira. Há três abusos claros nas manchetes de
hoje: a) a inflação não está mais em alta, nem deve ser
reduzida a qualquer custo; b) elevar os juros não é receita eficaz para fazê-lo; c) por
trás do suposto “remédio” esconde-se a luta da oligarquia financeira para
capturar uma parcela ainda maior da riqueza coletiva. Os jornais, é claro,
escondem esta tentativa.
Veja, ponto por ponto, como se manipulam os fatos.
1. Para constatar que a inflação não está subindo, mas em
queda, há dois meses, basta mirar o gráfico abaixo, publicado sem destaque
pelo Estado. A taxa, medida por um dos índices
do IBGE (o IPCA) foi de 0,47% em março, ante 0,6% em fevereiro e 0,86% em
janeiro. O índice anualizado só aumentou porque os 0,47% de agora substituíram,
no cômputo de doze meses, uma taxa excepcionalmente baixa, registrada em março
de 2012 – 0,21%. Tudo indica que, já em abril, a inflação anual recuará, sem
necessidade de qualquer intervenção, para os patamares previstos pela “meta” do
BC.
2. A mídia brasileira omite, mas há uma crítica internacional
crescente à crença segundo deve-se perseguir a queda da inflação a qualquer
custo. Pelo menos dois economistas premiados com o Nobel – Paul Krugman e
Joseph Stiglitz – têm sugerido o contrário. Propõem que os Estados mantenham,
nas próximas décadas, índices de inflação ligeiramente superiores aos atuais –
como ocorreu, aliás, nos “anos gloriosos” do pós-II Guerra. Explicam que tal
ambiente permitirá desvalorizar a riqueza financeira dos mais ricos, reduzir a
dívida pública e, em consequência, promover políticas redistributivas. Estas, explica Stiglitz,
estimulam a economia e a geração de empregos – porque a classe média e os
pobres consomem uma parte expressiva de seus rendimentos, enquanto os super
ricos entesouram quase tudo.
3. Ainda que a meta seja reduzir a inflação, elevar os juros é
uma péssima forma de fazê-lo. Num post extremamente didático, publicado hoje, o
jornalista Luís Nassif demonstra que
o BC dispõe de instrumentos muito mais eficazes para segurar os preços. Tem
total autonomia, por exemplo, para determinar uma redução dos prazos de
financiamento ao consumidor. A mudança torna mais difícil adquirir bens, reduz
o consumo e as pressões inflacionárias. Tome, por exemplo, uma geladeira de R$
1.000, financiada em 24 meses, a uma taxa de 4% ao mês. Hoje, as prestações são
de R$ 65,58. Com a redução do prazo para 18 meses, elas saltam para R$ 79,00.
Já a alta da Selic eleva-as para…
R$ 65,86. “Alguém deixaria de tomar financiamento por conta de um aumento
de 28 centavos?”, pergunta Nassif.
4. Por fim, a questão central. Se a alta da taxa Selic é tão
ineficaz, qual o motivo de tanta batalha em torno dela? É que os juros, embora
não reduzam a inflação, são, por excelência, o meio pelo qual a oligarquia
financeira extrai riqueza do conjunto da sociedade. Em 2012, o Estado
brasileiro desviou, do total de impostos arrecadados, R$ 128 bilhões (ou 4,81%
do PIB) para pagar juros – equivale a aproximadamente seis
vezes o
montante aplicado no Bolsa-Família. Mas, ao invés de beneficiar 13 milhões de
famílias, os juros fluem, segundo cálculos do IPEA, para apenas 0,5% da
população – a ínfima minoria que tem recursos para comprar títulos públicos ou
seus derivados.
Ocorre que este setor havia se acostumado a ganhar muito mais,
nos anos anteriores. Em 2011, foram R$ 151 bilhões; e no período FHC, a despesa
com juros chegou a 9% do
PIB. A redução da sangria foi alcançada precisamente graças à queda dos juros.
A partir de julho de 2011, a presidente Dilma orientou o BC a retomar a
trajetória de redução iniciada no governo Lula. As taxas, que são fixadas em
reuniões do Conselho de Política Monetária (Copom) do banco, caíram de 12,5% ao ano para os 7,5% de hoje.
Sucederam-se fatos extraordinários. Em 2012, por exemplo, os lucros de bancos
como o Itaú e o Santander recuaram, ainda que muito levemente – depois de anos
de recordes sucessivamente quebrados.
A oligarquia financeira jamais se conformou com a queda de
juros. Não pode, evidentemente, expor suas razões. Mas tem muito poder,
dinheiro e capacidade de “convencer” aliados importantes. Prepare seus olhos e
ouvidos. Até a próxima reunião do Copom, você estará exposto a doses cavalares
de propaganda ideológica – disfarçada na forma de “notícias” e previsões
alarmentes dos “especialistas de mercado”. O governo e o Banco Central cederão?
Esta é a pergunta que importa.
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